Canaã dos Carajás, Parauapebas e Marabá somam R$ 306,4 milhões em CFEM e concentram quase nove de cada dez reais que o estado recebeu da mineração neste ano. Especialistas voltam a cobrar transformação dessa riqueza em infraestrutura e diversificação econômica.
O sudeste do Pará segue como o coração financeiro da mineração brasileira. Em 2026, o estado já arrecadou R$ 353,2 milhões em Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), o royalty pago pelas mineradoras pela extração de recursos do subsolo — e mais de 86% desse total ficou concentrado em apenas três municípios: Canaã dos Carajás, Parauapebas e Marabá, que juntos somam R$ 306,4 milhões. A liderança é de Canaã dos Carajás, com R$ 137,7 milhões, à frente de Parauapebas (R$ 113,3 milhões) e Marabá (R$ 55,3 milhões).
A CFEM é a principal fonte de receita ligada à mineração no Pará e, por lei, 60% do valor retorna ao município produtor — aquele onde a extração de fato acontece. Os outros 15% vão para municípios afetados, 15% para os estados e 10% para a União. Esse desenho explica por que cidades que abrigam os maiores projetos minerais do planeta, como a mina de ferro S11D e os projetos de cobre Sossego e Salobo, todos operados principalmente pela Vale, recebem cifras milionárias mês a mês.
Para o Sindicato das Indústrias Minerais do Estado do Pará (Simineral), a concentração não representa uma distorção, mas o reflexo direto do modelo legal e do perfil da atividade no estado. Segundo o presidente da entidade, José Fernando Gomes Júnior, a distribuição segue critérios definidos pela legislação, e as diferenças entre os municípios refletem estratégias logísticas, etapas de exaustão das minas, ampliação de frentes de lavra e ajustes no processamento e escoamento da produção.
O ranking da CFEM em 2026 no Pará é dominado de ponta a ponta pela região de Carajás. Veja os dez municípios que mais receberam:
| Posição | Município | CFEM recebido em 2026 |
|---|---|---|
| 1º | Canaã dos Carajás | R$ 137.727.099,40 |
| 2º | Parauapebas | R$ 113.307.928,78 |
| 3º | Marabá | R$ 55.365.751,82 |
| 4º | Curionópolis | R$ 13.733.871,80 |
| 5º | Itaituba | R$ 7.698.487,20 |
| 6º | Paragominas | R$ 7.581.382,31 |
| 7º | Juruti | R$ 3.822.926,02 |
| 8º | Terra Santa | R$ 3.763.368,58 |
| 9º | Água Azul do Norte | R$ 2.910.653,38 |
| 10º | Oriximiná | R$ 2.265.102,04 |
Mais de 60 municípios paraenses receberam algum valor de CFEM no ano, mas a imensa maioria ficou com quantias modestas — em vários casos, poucos milhares de reais. O contraste evidencia a dependência do estado de poucos polos minerais e a hegemonia de Canaã dos Carajás, que vem ampliando a vantagem sobre a histórica líder Parauapebas.
A chuva de royalties coloca essas prefeituras entre as mais ricas do Norte do país em arrecadação por habitante. Ao mesmo tempo, órgãos de controle e especialistas apontam um paradoxo: apesar dos bilhões acumulados ao longo dos anos, parte significativa dos municípios mineradores ainda convive com ruas esburacadas, déficit de saneamento, bairros sem drenagem e saúde pública sobrecarregada.
A CFEM deveria funcionar como compensação pelos impactos da mineração, financiando infraestrutura, diversificação econômica e melhoria da qualidade de vida. Na prática, parte dos recursos acaba absorvida por despesas correntes e contratos de curto prazo, sem enfrentar os gargalos estruturais. O debate ganha urgência diante de um risco concreto: a exaustão futura das jazidas, que pode reduzir drasticamente a receita de cidades hoje quase totalmente dependentes do minério.
Com o avanço do Programa Novo Carajás — pacote de R$ 70 bilhões da Vale até 2030, do qual cerca de R$ 35 bilhões já têm aplicação definida —, a tendência é que a arrecadação de CFEM na região continue elevada nos próximos anos, impulsionada pela expansão do ferro e, sobretudo, do cobre. O desafio que se impõe aos gestores de Canaã dos Carajás, Parauapebas e Marabá é transformar a receita extraordinária em uma economia capaz de sobreviver ao fim do ciclo mineral, investindo em diversificação, serviços, infraestrutura permanente e qualificação da mão de obra local.
Os números de 2026 confirmam: a riqueza mineral do Brasil tem endereço no sudeste do Pará. A questão que permanece em aberto, e que interessa diretamente a quem vive na região, é se essa montanha de royalties vai se converter em desenvolvimento duradouro ou apenas reforçar a dependência de um modelo com prazo de validade.
(Texto original produzido pelo Portal Sudeste Paraense a partir de apuração própria e cruzamento de fontes.)